Bomba fiscal no Brasil e por que você deveria se preocupar com isso já!
- Pedro Papastawridis

- há 16 minutos
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Imaginemos uma situação em que você precisa preparar um orçamento para gerir suas receitas e gastos ao longo do ano. Independentemente do formato que você adotará na construção do orçamento, basicamente ele possuirá os seguintes grupos de contas:
Saldo inicial do mês
(+) Receitas correntes (do dia a dia)
(-) Despesas correntes (do dia a dia)
(+) Receitas financeiras (rendimentos de aplicações e similares)
(-) Despesas financeiras (juros e encargos financeiros similares)
(=) Saldo final do mês (que será o mesmo do início do mês subsequente)
Para uma melhor compreensão do que são as tais receitas e despesas correntes, estamos falando das contas empregadas, respectivamente, no financiamento e no gasto regular de nossas vidas. Por exemplo: pelo lado das receitas correntes, temos os salários e honorários que recebemos, enquanto pelo lado das despesas correntes temos as contas de água, luz, telefone e gás, além das mensalidades da escola e do plano de saúde.
Caso você queira apurar o resultado corrente do seu orçamento, basta subtrair das receitas correntes as despesas correntes. Ao resultado dessa subtração daremos o nome de “resultado primário”. Se você desejar apurar o resultado após todas as receitas e despesas, daí falaremos de resultado nominal.
Digamos que você esteja com dificuldades em manter as despesas correntes inferiores às receitas corrente, pois decidiu deixar a evolução dos gastos “correr solta” por entender que “gasto é vida”. Porém, as receitas correntes não conseguem acompanhar a evolução dos gastos, o que resulta em sucessivos déficits. E os credores não querem saber disso: ou paga o que deve mensalmente, ou fica sem água, luz, telefone e gás, além de ficar com o nome sujo na praça. Num cenário assim, você é obrigado a recorrer a sucessivos empréstimos para cobrir o rombo no orçamento.
Todavia, quando você contrai um empréstimo, outras duas contas passam a compor o orçamento mensal: uma que é o valor mensal amortizado dos empréstimos e a outra que são os juros desses empréstimos. Com isso, aumenta a pressão por redução das despesas correntes, pois será necessário um espaço orçamentário para honrar os compromissos financeiros resultantes desses empréstimos. Mas você decidiu que “gasto é vida”, o que faz com que o déficit primário aumente ainda mais e o déficit nominal dispare, devido à escalada dos juros, que se mantêm num patamar elevado para cobrir o seu risco cada vez maior de inadimplência ou calote.
Diante da sucessão de eventos acima, o que você faria? Deixaria os gastos escalarem, ou promoveria uma política de austeridade nas suas despesas correntes?
Você ponderou muito e decidiu se consultar a respeito do assunto com amigos e colegas que possuem bons diplomas e currículos invejáveis e que vêm se beneficiando de alguma forma do seu estilo de vida gastador. Mas eles pouco se importam com sua saúde financeira. Seja por falta de escrúpulos ou empatia, eles entendem que o “problema é seu”, não deles. Mas eles participam dos churrascos na sua casa, gostam da sua piscina e sempre ganham brindes de viagem todas as vezes que você vai para a Europa. Em vista disso, eles propõem uma solução mágica: desconsiderar do cálculo do resultado corrente algumas despesas, sem que elas deixem de existir de fato. Você não renunciaria ao seu estilo de vida gastador, eles continuariam se beneficiando disso e o orçamento corrente ficaria “no azul”. Só que não!
Os valores de algumas contas podem não aparecer no cálculo, mas eles ainda existem e o déficit também. Tanto é que os empréstimos contraídos se tornam cada vez mais volumosos e os juros carregam em sua composição o risco crescente de inadimplência ou calote. Diante disso, os bancos e financeiras decidiram que não aportarão mais empréstimos em sua aventura orçamentária, o que faz com que você fique num dilema existencial, pois terá que promover uma mudança radical no seu estilo de vida. Afinal de contas, como será que seus “amigos e colegas de churrasco” vão reagir à mudança abrupta em sua rotina de festas e viagens?
Olhando de maneira sóbria a situação descrita acima, muitos de nós diremos se tratar de uma bizarrice com um misto de burrice e irresponsabilidade. Mas é o que vem ocorrendo com as contas públicas nacionais nos últimos 3 anos.
Desde que o atual governo formulou, enviou para o Congresso Nacional e teve aprovado por deputados federais e senadores o atual arcabouço fiscal, dezenas de bilhões de reais em gastos vêm sendo desconsiderados da meta de resultado primário todos os anos, enquanto o déficit primário persiste. Isso sem falar no resultado nominal, cuja síntese deixo por conta do Banco Central no parágrafo abaixo (Nota para a imprensa – 30/01/2026, extraída do endereço https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais em 03/02/2026):
“O resultado nominal do setor público consolidado, incluindo primário e juros, foi deficitário em R$1.062,6 bilhões (8,34% do PIB) em 2025, ante déficit nominal de R$998,0 bilhões (8,47% do PIB) em 2024. Em dezembro, o resultado nominal foi deficitário em R$115,5 bilhões, comparativamente a déficit de R$80,4 bilhões em dezembro de 2024.”
Se você não se importou com isso, ou é porque ainda não entendeu a bomba fiscal que está na iminência de explodir a médio prazo, ceteris paribus, ou é um dos que se beneficiam do churrasco e das viagens que o Estado Brasileiro promove com o dinheiro de todos.
Diante de todo o exposto acima, desejo sabedoria a todos nas urnas e que o desejo de um país mais responsável do ponto de vista fiscal, mais ético e mais seguro supere o assistencialismo, o cotismo e as mamatas dos Três Poderes que impulsionam a falência gradual do Estado brasileiro.
Um forte abraço a todos e fiquem com Deus!





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